«Agência»* e «Calistenia Anarquista» no contexto da ação ecológica
Baseado largamente num vídeo de Anna Howard.
Acho que a agência (ou qualquer um dos sinónimos acima) pode ser uma característica aprendida. Pode-se aprender a ter mais agência na vida, a ser mais «agente»/«agêntico». Pode-se cultivar diferentes partes da personalidade da mesma forma que se cultivam diferentes habilidades. Às vezes, porém, é quase difícil identificar esses lugares onde nos falta agência se não compreendermos totalmente o que é a agência.
• Acho que uma forma de identificar a falta de agência é reconhecer essa sensação de «ainda não tenho informações suficientes», por exemplo, pensar que precisas de saber como algo funciona para que funcione. Isso não é necessário. E isso é apenas um equívoco fundamental sobre como funciona a aprendizagem. Se ficarmos presos nessa sensação de «preciso de reunir mais informações. Preciso de entender como isto funciona» por muito tempo, estamos a perder agência.
Aprendemos a ser bons, a colocar os outros em primeiro lugar e a seguir as regras. E uma grande parte do exercício da agência é aprender a quebrar regras idiotas. Muitas vezes, agimos de acordo com os valores da sociedade e não avaliamos totalmente quais são os nossos próprios valores e como eles podem ser diferentes dos de todos à nossa volta. E isso leva-me à ideia de Calistenia Anarquista.
A minha introdução a este tema vem do Happy Urbanist. Para nos ajudar a entender
a Calistenia Anarquista, ele usou este exemplo hipotético:
Imagina que vives numa comunidade que é muito mal servida pelas ambulâncias da cidade. Como resultado, as pessoas enfrentam tempos de espera muito longos pela ambulância, o que leva a mortes. Então, o que tu e todos os teus amigos fazem é reunir-se, juntar todos os vossos recursos, treinar coisas como primeiros socorros, e até obter algumas certificações oficiais para administrar certas coisas, conseguir uma carrinha, levá-la de um lado para o outro e, então, começar a ouvir os scanners do 112 e levar as pessoas ao hospital.
Começam a fazer isso diariamente - e estão realmente a salvar a vida de muitas pessoas. Mas então o serviço de ambulâncias processa a cidade por permitir a existência deste tipo de serviço de ambulância ad hoc. Por isso, a cidade toma medidas severas e decide que qualquer pessoa que fizer isso receberá uma multa nas três primeiras vezes e, na quarta vez, será presa. Então, mais uma vez, tu e todos os teus amigos juntam os vossos recursos, pagam as multas e chegam a um ponto em que todos já receberam a terceira multa. Assim, a próxima pessoa a ser apanhada a fazer isso - a salvar a vida de alguém nesta ambulância ad hoc - será condenada à prisão.
Estarias disposto a cumprir pena de prisão para potencialmente salvar a vida de alguém? E então uma segunda pergunta: se fosses tu a estar nessa posição, achas que serias o único a dizer sim à pena de prisão?
E ele diz que isso vem do professor e autor James C. Scott, que argumenta que, se não fores regularmente disciplinado na prática de quebrar regras idiotas que têm pouca consequência, não terás a força moral para quebrar regras importantes de grande consequência quando elas surgirem. Como tal, é teu dever quebrar regras estúpidas para desenvolver tolerância às opiniões das pessoas, de modo que, quando regras importantes precisarem ser quebradas, tenhas a capacidade de fazê-lo. Ele chamou isso de Calistenia Anarquista.
E acho que também se aplica a esse tipo de mentalidade pessimista... Há muitas pessoas hoje em dia que se sentem impotentes e acham que já não temos tempo, mas haverá pessoas que irão encorajar a ação em ti. Acho que é inteligente deixar de seguir pessoas online que estão constantemente a partilhar apenas mensagens alarmistas porque quando projetamos esses futuros horríveis, seja sobre a crise climática, IA, os nossos sistemas alimentares, seja o que for, essas imagens que os bilionários da tecnologia estão realmente a divulgar e a esperar (porque estão tão desconectados de qualquer coisa real), quando estamos a prever esses futuros, aquilo com que estamos a lidar não é real. E quando acreditamos nessas projeções da nossa imaginação em grande escala, o que isso faz é privar-nos da nossa agência neste momento.
Eliza Day disse “Não é mau manteres-te informado. Mas se estás só a absorver informações e a permitir que elas sequestrem a tua imaginação e te tirem a tua capacidade de agir, de conduzir este barco para uma direção diferente daquela que os bilionários da tecnologia querem que sigamos, tu precisas de te perguntar a ti mesmo como é que isso vai influenciar a maneira como passas a abordar o mundo. Isso não vai mobilizar-te para a ação. Vai fazer com que desistas mesmo antes de começar.” ... Se tudo o que podemos imaginar é uma distopia, então é uma distopia que vamos ter. Portanto, devemos fazer tudo ao nosso alcance, tudo o que estiver à nossa disposição, mesmo que tenhamos essa sensação subjacente de que tudo é em vão, de que não temos poder. Afinal, é assim que o sistema foi projetado para nos fazer sentir. Tudo isto para dizer que é importante encontrar outras pessoas que estejam a construir esse sentido de autonomia, proatividade e agência na tua comunidade para que tu possas fazer o mesmo.


Comentários
Enviar um comentário